A porta do meu escritório não me isolou do turbilhão de pensamentos que estava em minha mente.
Fiquei parado no meio da sala, com o corpo ainda vibrando como um fio esticado.
A cada batida do meu coração, era um flash do gosto dela, o som do gemido abafado no meu pescoço, o seu peso no meu colo, a coragem absurda nas mãos quando ela me despiu.
Meu Deus. Ela tinha me desarmado por completo.
Uma parte de mim, a parte animal e idiota, só queria correr de volta pro corredor, arrombar a porta dela e repetir tudo, de novo e de novo, mas em uma cama dessa vez, com tempo, com luz, explorando cada centímetro daquele corpo que eu tinha visto à meia-luz.
A ideia de tê-la completamente, de poder devorá-la sem pressa, me deixou com uma tensão quase dolorosa.
Mas a outra parte, a que tinha jurado protegê-la minutos antes, deu um soco no meu estômago. Seu marido… ex… não sei. Sabia que ele era perigoso, do tipo que não larga um osso, muito menos uma mulher que ele ainda considerava posse.
Se ele descobrisse… ou ao menos suspeitasse… Meus punhos se fecharam sozinhos. Eu não podia ser impulsivo. Tinha que proteger ela disso e ser inteligente.
Um suspiro pesado saiu dos meus pulmões. A realidade, a chata e cinzenta, bateu à porta. A delegacia. O delegado tinha me chamado, mas por que? Não era hora de pensar nisso.
Peguei as chaves do carro, tentando me recompor, mas o cheiro dela ainda estava na minha camisa.
Respirei fundo, como se pudesse guardar aquele ar, mas não deu. Minhas pernas me carregaram pelo corredor, quase sem eu mandar, até parar em frente à porta de vidro dela.
Ela estava lá. Sentada na cadeira, olhando pra nada, com uma expressão entre atordoada e assustada que me partiu o coração. Bati duas vezes, leves, e abri a porta antes que ela se levantasse.
Ela ergueu o rosto, surpresa. Ainda estava linda, mesmo com o cabelo um pouco fora do lugar e os olhos um pouco fundos. Uma onda de possessividade doentia passou por mim. Minha.
— Você tá bem? — minha voz ainda parecia rouca, mas pelo menos saiu.
Ela assentiu rápido, quase um reflexo.
— Sim, está tudo… sob controle.
Sorri, tentando passar uma calma que não sentia.
— Bom. Vou aproveitar que tá mais tranquilo aqui e dar uma passada na delegacia. Seu irmão me chamou.
O rosto dela se contraiu num instante.
— Eduardo? Mas… ele tá internado.
A informação me pegou de jeito.
— Internado? Como assim?
— Ontem à noite. Ele… ele foi atingido por um tiro durante uma operação.
O ar saiu dos meus pulmões. Uma operação? Eduardo era um bom delegado, provavelmente foi com aquela facção. Algo frio começou a subir pela minha nuca.
— Ele tá bem? — perguntei, sentindo a preocupação genuína apagando um pouco o fogo que ainda queimava em mim.
— Está estável. — Ela fez uma pausa, e os seus olhos ficaram marejados por um segundo, mas não de tristeza e sim, alívio. — Ele… ele me perdoou, Rafael.
Aquilo me pegou totalmente desprevenido. Sabia que os dois tinham brigado feio e parecia durar muito tempo. Ver aquilo se resolver… um sorriso largo, genuíno, tomou meu rosto.
— Você merece isso, Lorena. Merece muito.
Ela sorriu de volta, um sorriso pequeno mas verdadeiro, que iluminou a sala toda pra mim.
— Eu vou lá então. Se der, volto ainda hoje — falei, já me virando pra sair. Mas não resisti. Na porta, me virei de novo. — Você tá linda, sabia?
Dessa vez, o seu sorriso chegou até os olhos, e eu senti o mundo se ajeitar um pouquinho. Fechei a porta com cuidado.
No elevador, o sorriso se dissipou e a frieza voltou. Uma operação e o delegado foi ferido… Agora, um chamado na delegacia pra mim. Isso não era coincidência, tinha cheiro de problema.
O que, exatamente, eles queriam comigo? E o mais importante: isso ia respingar na Lorena? O aperto no peito voltou, mas agora era um aperto diferente.
Era o instinto de proteger o que era meu, e a sensação nítida de que as sombras ao nosso redor estavam ficando mais densas.
***
— Confirmado. Ele estava profundamente envolvido com esse grupo, Rafael. Mais do que a gente imaginava e acabou morrendo no tiroteio. A esposa e a filha dele já foram informadas.
Deixei a foto cair de volta na pasta, como se ela tivesse queimado. Genildo. Morto.
O cara que tinha trazido um inferno de ameaças, dívidas e problemas para a minha vida, para a vida da minha família… simplesmente tinha virado uma foto feia numa pasta da polícia.
— Então… acabou? — a pergunta saiu como um sussurro. — A dor de cabeça com ele… acabou?
— É provável — Maicon respondeu, erguendo um ombro. — O grupo foi desmantelado. Mas fica esperto por um tempo, só pra ter certeza que não tem nenhum filhote perdido querendo vingança. Depois, vida que segue.
— Posso ir? — foi tudo que consegui perguntar.
— Pode. E fica tranquilo. Essa página foi virada.
Saí da sala e do prédio num estado meio sonâmbulo. O ar lá fora parecia mais pesado do que quando entrei.
Quando entrei no carro e fechei a porta, o silêncio foi absoluto. Encostei a cabeça no volante. Eu deveria estar pulando de alegria. Era a notícia que eu mais queria ouvir desde o acontecimento com meu irmão. O pesadelo tinha terminado e a ameaça sumiu.
Então por que o meu peito estava tão apertado? Por que uma ponta de… tristeza? Era isso?
Era tristeza por ele? Pelo Genildo? O homem era um lixo, um parasita que sugou a gente até o osso e depois tentou nos arrastar pro buraco com ele. Ele não merecia um pingo da minha pena.
Mas era meu tio. A mesma pessoa que me carregava no ombro quando eu era criança, que me ensinava a jogar bola. Aquele homem tinha morrido.
E aquilo, por mais que eu odiasse o que ele se tornou, deixou um vazio estranho e amargo na minha garganta.
Respirei fundo, tentando afastar o sentimento confuso. Não era hora de fraquejar. Era hora de alívio.
E de dar a notícia pra minha mãe, que tinha passado noites em claro de preocupação. Para o meu pai, que fingia força mas estava se consumindo por dentro.
Não pensei duas vezes. Virei a chave e saí, direto para a casa dos meus pais. Era hora de contar a eles que, finalmente, a tempestade tinha passado.
O resto… o resto eu lidava depois. Com a Lorena, o Thales, e essa sensação esquisita no peito. Tudo depois. Agora, era hora da minha família respirar aliviada.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Aliança Provisória - Casei com um Homem apaixonado por Outra
Onde está o capítulo *470* ?????????...
Kde o 470 ??? Aguardando...
É impressão ou a história ficou com partes puladas e sem detalhes ?...
Eita ela postou capítulos de outro livro é pacabá né...
Onde está o capítulo 419?...
Está chato continuar essa leitura mesmo no grátis só ler por metades quando atualiza tem uma tal de desvende os mistérios puta que pariu....
Afff piorou, agora não são dois, é nadaaaa!!!...
Vou fazê-lo novamente!!!! Dois capítulos por dia é um desrespeito!!!...
Ué cadê meu comentário?...
Esse é o terceiro livro, os dois primeiros caminharam bem, mas agora só dois capítulos por dia é muito pouco. Lembre-se de seu compromisso com os leitores...