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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 539

~ NICOLÒ ~

Não consegui dormir.

Fiquei deitado na cama, encarando o teto escuro do meu quarto, ouvindo o relógio na parede marcar cada segundo que passava com um tique-taque metódico e irritante.

Minha mente não parava.

Girava e girava em círculos viciosos, sempre voltando para os mesmos problemas. A vinícola precisava de manutenção que eu não tinha dinheiro para fazer. A pousada estava com reservas baixas para a temporada. As contas se acumulavam. E Bella... Bella precisava de tantas coisas que eu mal conseguia dar conta.

E agora, além de tudo isso, tinha Bianca.

Uma mulher que eu mal conhecia. Uma mulher que nem conseguia saber direito quem ela era. Mas que acreditava, com todas as forças, que íamos nos casar.

E eu não podia contrariá-la.

O médico tinha sido claro: não estressar, não criar conflitos, deixar a memória voltar naturalmente. E eu tinha concordado. Tinha assinado os papéis assumindo responsabilidade por ela.

Mas ninguém tinha me avisado que seria tão difícil.

Ninguém tinha me avisado sobre os olhos azuis dela me encarando com aquela confiança absoluta. Sobre o sorriso que iluminava o rosto inteiro quando ela falava sobre nosso "futuro juntos". Sobre a forma como meu corpo reagia quando ela se aproximava, quando me tocava, quando...

Virei na cama, socando o travesseiro com frustração.

Não ia conseguir dormir. Nem adianta tentar.

Quando os primeiros raios de sol começaram a infiltrar pela janela, desisti completamente. Levantei, vesti uma calça de moletom e uma camiseta, e desci para a cozinha.

Martina já estava lá, como sempre. Minha mãe acordava com as galinhas, dizia ela, e não havia forma de mudar isso mesmo que tentasse. Duas das ajudantes da pousada também estavam presentes, cortando frutas e preparando pães para o café da manhã dos hóspedes.

O cheiro de café fresco e pão assando normalmente me acalmava. Mas hoje, nem isso ajudava.

— Bom dia — cumprimentei, minha voz saindo mais rouca do que o normal.

Martina se virou da bancada onde estava batendo ovos e me olhou de cima a baixo. Sua expressão mudou imediatamente de neutra para preocupada.

— Você está com uma cara péssima — declarou sem rodeios.

— Bom dia pra você também, mãe — respondi com ironia, mas sem real animosidade.

— Sério, Nico. Você dormiu?

— Mal consegui — admiti, pegando uma xícara e me servindo de café. O líquido escuro e forte era exatamente o que eu precisava.

Martina trocou um olhar com as ajudantes, então limpou as mãos no avental.

— Meninas, vocês conseguem terminar aqui? — perguntou.

— Claro, senhora Martina — respondeu uma delas prontamente.

Minha mãe me fez um gesto com a cabeça em direção à porta dos fundos. Segui-a até a varanda externa, onde o ar frio da manhã me atingiu como um tapa refrescante.

O sol estava nascendo, pintando o céu com tons de rosa e laranja. As colinas cobertas de neve brilhavam sob a luz nova. Era bonito. Sempre era bonito.

Mas eu mal conseguia apreciar.

Martina cruzou os braços e me encarou com aquele olhar maternal que sempre conseguia me fazer sentir como se tivesse dez anos de novo.

— Está sendo mais difícil do que você pensava, não é? — perguntou suavemente. — Lidar com a Bianca?

— Aparentemente sim — respondi, tomando um gole longo de café.

— Considerando que você não sai de perto dela — continuou minha mãe, e havia um tom levemente divertido em sua voz agora.

Tentei disfarçar, olhando para o horizonte em vez de encará-la.

— Preciso ser cuidadoso. Seguir o papel de noivo preocupado, como o médico orientou.

Silêncio.

Então, porque aparentemente eu não conseguia mentir para minha própria mãe mesmo quando tentava, continuei:

— E... — pausei, respirando fundo — estou realmente preocupado. E não só com o fato dela querer nos processar quando recuperar a memória. Mas... com ela.

Martina não disse nada. Apenas esperou, dando-me espaço para continuar.

— Não é sobre mim — acrescentei rapidamente, antes que ela pudesse fazer a pergunta que eu via se formando em seus olhos. — É sobre Bella.

— Bella?

Alguns minutos se passaram. Terminei o café. Considerei entrar também.

Então a porta se abriu e Martina voltou. Ela segurava algo pequeno nas mãos — uma caixinha de veludo azul-escuro, desgastada pelo tempo.

Meu coração apertou. Eu conhecia aquela caixinha.

— Mãe... — comecei.

Mas ela não me deixou terminar. Abriu a caixinha, virando-a na minha direção.

Lá dentro, aninhado em cetim branco levemente amarelado pelo tempo, estava um anel. Ouro branco, com uma pedra discreta mas claramente cara no centro — não era enorme ou chamativa, mas tinha aquela qualidade que só joias de verdade possuem. Ao redor da pedra central, pequenos diamantes formavam um desenho delicado em estilo vintage.

Era lindo. Elegante. Atemporal.

— Mãe... — tentei novamente, mas minha voz falhou.

— É uma solução — disse Martina simplesmente, colocando a caixinha nas minhas mãos. — O anel que seu pai me deu quando ficamos noivos. Sempre achei que seria seu um dia. Ou da sua noiva, claro.

Peguei a caixinha com cuidado, como se fosse algo sagrado. E era, de certa forma. Era a história dos meus pais, o amor deles, anos de casamento feliz até a morte de meu pai.

Não pude deixar de pensar que ela não me ofereceu aquilo antes, quando, de fato, me casei. Talvez ela soubesse das coisas melhor do que eu sabia na época.

— Mas, mãe, a questão é que... — respirei fundo — Bianca não é minha noiva. Não de verdade. Eu não posso aceitar isso.

Martina sorriu, daquele jeito suave e sábio que mães têm.

— Tudo bem. É só temporário, então. Ofereça a ela e quando ela recuperar a memória... pegue de novo.

Fez sentido. Lógica perfeita. Resolveria o problema imediato sem gastar dinheiro que eu não tinha.

Mas ainda parecia errado de alguma forma. Errado usar algo tão significativo em uma mentira.

— A não ser... — Martina fez uma pausa, aquele sorriso se alargando levemente.

— A não ser? — perguntei, confuso.

— A não ser que o destino tenha outros planos para vocês.

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