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Aliança Provisória - Casei com um Homem apaixonado por Outra romance Capítulo 366

(Visão de Rafael)

Cheguei mais cedo do que o combinado, mas Markus já estava lá, encostado na porta da sala de segurança com uma garrafa de café na mão e aquela cara de “vai ser um longo dia”.

— Atrasado — ele provocou, mesmo sabendo que eu estava adiantado.

— Vai te catar — respondi, empurrando ele de leve enquanto entrava.

A sala estava um caos organizado: com fios, notebooks, kits de câmeras, ferramentas que eu nem lembrava de ter comprado. Tudo separado exatamente como eu pedi. Esse era o lado bom do Markus, ele reclamava, mas fazia tudo nos mínimos detalhes.

— Bora começar antes que o povo da limpeza resolva dar uma passadinha aqui — ele disse, entregando o estojo com as câmeras extras.

Abri o estojo e respirei fundo. Pequenas, discretas, autônomas. Funcionavam com cartão de memória caso o Wi-Fi fosse cortado, já estava contando com isso. Se o desgraçado resolvesse aprontar, não ia ter buraco nenhum na gravação.

— Colocamos nos pontos cegos primeiro — falei, e Markus balançou a cabeça, concordando.

Passamos pelos corredores como dois fantasmas. A empresa ainda estava silenciosa, sem o barulho de salto, risadas ou portas batendo. Isso deixava tudo mais fácil… e mais estranho.

No primeiro ponto estratégico, perto da saída de emergência, Markus ficou de vigia enquanto eu retirava o painel da parede.

— Você tá bem? — ele perguntou, baixinho.

— Tô. — Mentira. — Só… quero que isso acabe logo.

— Você tá com cara de quem vai vomitar — ele disse.

— Obrigado pela motivação — resmunguei, encaixando a câmera dentro do espaço, direcionando para a porta.

Uma parte de mim queria rir. A outra queria socar alguém.

Seguimos para o segundo ponto, perto do depósito de materiais. A câmera ficou atrás do detector de presença, apontada para o corredor lateral. Ninguém ia perceber.

— Se o Wi-Fi cair, a gravação continua aqui — eu disse, testando.

— Perfeito — Markus respondeu. — Agora só falta a do salão.

Descemos para o salão principal.

As luzes ainda estavam apagadas, só alguns focos acesos. A equipe de decoração viria mais tarde, mas agora o ambiente era um enorme vazio ecoando cada passo nosso. Era ali que tudo ia acontecer.

Ali que aquela infeliz ia tentar me ferrar.

Colocamos a câmera principal atrás da moldura do quadro perto do palco improvisado. Bem no alto, apontando para o centro do salão.

— Beleza — Markus disse, limpando as mãos na calça. — Tudo pronto.

Fiquei parado por um momento, olhando para o vazio.

Sentia minha garganta apertada e o estômago gelado.

Fazia piada, tentava manter o humor, mas… estava inquieto. Não pelo plano em si e sim o que aquilo significava.

— Ei — Markus chamou, batendo de leve no meu ombro. — Vai dar certo. A gente vai pegar esse desgraçado.

Assenti, passando a mão na nuca.

— Só quero acabar com isso hoje.

— Então vamos acabar — ele disse, simples assim.

Respirei fundo, me afastando das câmeras.

O salão estava pronto.

O plano também.

Agora era esperar a armadilha se fechar.

***

A música já estava alta quando eu e Markus entramos no salão. Luzes coloridas, gente rindo, conversando, brindando… como se não tivesse uma bomba prestes a explodir ali dentro.

Entrei com um sorriso no rosto, ombros relaxados e postura de chefe tranquilo.

Mentira. Tudo fachada.

— Aí, chefe, olha o povo fingindo que não tá te encarando — Markus murmurou ao meu lado, segurando um copo de refrigerante como se fosse álcool.

— Normal — respondi. — Depois do bônus, eles me amam por uns dez dias.

Fomos circulando. Eu cumprimentava um, elogiava outro, agradecia pelo trabalho, fazia aquele discurso padrão de “vocês são incríveis, parabéns pelo empenho”. Funcionário feliz era igual a funcionário falando bem. E hoje eu precisava exatamente da energia positiva... antes da parte suja.

Enquanto cumprimentava um grupo perto da mesa de doces, Markus estava em modo radar. O cara não piscava. Ele observava cada movimento, cada cochicho, cada funcionário que passava sozinho perto do corredor.

— Relaxa um pouco, velho — eu disse quando parei perto dele.

— Relaxado tô eu. Você que tá parecendo que vai infartar — ele retrucou.

Bufei e tirei o celular do bolso. Não era hora de discutir.

Abri o app das câmeras.

Nada do Wi-Fi ter caído.

Boa.

Rolei pelas imagens, fingindo estar respondendo mensagens. Telas externas… corredores… recepção… tudo normal.

Até que não estava mais.

Minha visão travou numa imagem familiar, na sala do Markus.

Um homem entrando devagar, olhando para trás.

Denrik. Funcionário antigo. Sempre calado e correto. Nunca atrasou um dia ou pediu aumento. Nunca deu problema.

E agora estava mexendo no computador do Markus.

Parei no meio da calçada, com o peito ardendo, o coração batendo tão forte que parecia querer romper minhas costelas. Minha mão tremia… a que eu tinha estendido como se pudesse evitar o que acabou de acontecer.

Um grupo de pessoas começou a se aproximar, algumas filmando, outras só olhando horrorizadas, enquanto o carro que atropelou seguiu, em fuga.

Markus alcançou meu lado.

— Puta merda…

Não conseguia responder.

Não conseguia nem piscar.

A cena estava presa na minha cabeça, repetindo em loop de Denrik correndo, eu tentando pará-lo, o carro surgindo do nada, o som do corpo atingindo o capô.

Segundos depois, ouvimos as sirenes.

A polícia chegou rápido demais, alguém com certeza já tinha ligado. Quando se aproximaram de mim, eu ainda estava parado no mesmo lugar, como se meus pés tivessem fincado no chão.

— O senhor viu o que aconteceu? — o policial me perguntou em alemão.

Demorei para reagir, minha boca ficou seca, como se eu tivesse areia na garganta.

— Eu… — engoli em seco. — Ele estava fugindo. Eu… corri atrás dele e ele não olhou pra rua.

O policial me analisou com atenção, como se estivesse tentando medir minha culpa pelo modo como eu falei, pelo estado em que eu estava.

Markus se aproximou, tentando ajudar:

— Nós somos da empresa onde ele trabalha. Ele estava sendo investigado, tentou fugir… e… — Markus balançou a cabeça, sem conseguir completar.

Denrik estava morto.

Nós testemunhamos tudo.

E de repente eu senti a primeira pontada real de amargura… isso vai dar problema.

Inspirei profundamente, tentando me recompor, mas minhas mãos continuavam tremendo.

A noite da armadilha tinha virado uma tragédia. Nem sei quanto tempo tinha passado, mas a rua estava cheia, com policiais, curiosos, imprensa e a ambulância.

O policial que havia anotado meu depoimento se afastou por alguns minutos, conversou com outros agentes… e depois voltou até mim e Markus com um semblante ainda mais sério do que antes.

Meu estômago já estava revirado, mas quando ele parou bem na minha frente, senti algo ainda pior se instalar ali. Aquela sensação de que algo estava prestes a desabar.

— Senhor Fonseca — ele começou. — Precisamos informar o senhor de algo que encontramos nas câmeras de trânsito próximas.

Minhas mãos ainda tremiam, escondidas nos bolsos do casaco.

— O… quê exatamente?

Ele respirou fundo, como quem avalia as palavras.

— O veículo que atropelou Denrik não parece ter surgido por acaso. Temos registros dele circulando ao redor do prédio da sua empresa nos últimos trinta minutos antes do acidente. Andando devagar. Passando mais de uma vez.

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