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Aliança Provisória - Casei com um Homem apaixonado por Outra romance Capítulo 370

(Visão de Rafael)

Joguei o corpo na cama do hotel como se o colchão pudesse, por algum milagre, organizar o caos na minha cabeça. A polícia tinha me liberado faz poucos minutos, mas com aquela condição irritante de que eu precisava ficar no país até tudo ser concluído. Não adiantava bufar, reclamar ou tentar argumentar. Era aquilo e pronto. Alemanha por tempo indeterminado.

Levei a mão ao rosto, respirando fundo, quando o celular vibrou.

Era Ruan.

Atendi de imediato.

— Diz aí.

— Só pra te atualizar… tá todo mundo bem. — Ele começou, mas havia algo em sua voz, um peso estranho. — Ah… e mesmo você não tendo pedido, o segurança que tá de olho na sua assistente me enviou informação agora há pouco.

Me endireitei na cama, o cenho fechando na hora.

— Que informação?

— O marido dela apareceu lá. Ficou alguns minutos e saiu com uma mala de novo.

Meu estômago travou por um segundo.

— Aconteceu mais alguma coisa? — perguntei, já imaginando mil cenários.

— Não. — Ruan respondeu — Só isso mesmo. Ele entrou, conversou, pegou a mala e foi embora.

Soltei o ar, meio tenso ainda.

— Beleza. Valeu por avisar.

Troquei mais algumas palavras rápidas com ele e encerramos a ligação.

Fiquei encarando o teto por longos segundos. Deveria ligar pra Lorena? Parte de mim queria ouvir a sua voz. Outra parte dizia que eu devia deixar pra lá, não jogar esse peso todo em cima dela. Mas só de imaginar passar a noite sem falar com ela, um incômodo bateu.

Suspirei, peguei o celular e apertei o botão de chamada antes que a coragem evaporasse.

Ela não atendeu de imediato. Demorou tanto que comecei a achar que ia cair na caixa postal.

Mas então a chamada conectou.

— Alô…? — Sua voz veio baixa, quase hesitante.

Meu peito deu um aperto idiota.

— Oi… é… como você tá? — perguntei, tentando soar mais tranquilo do que realmente estava.

— Tô bem. — ela respondeu. — E você? Tá tudo bem?

Soltei um riso sem humor.

— Mais ou menos. Aconteceram umas coisas.

Silêncio do outro lado. Aquele silêncio preocupado que eu conhecia bem.

— Rafael… o que aconteceu?

Passei a mão nos olhos, respirando fundo.

— Descobrimos que havia um funcionário que estava passando informações pro meu ex-sócio. — esperei um pouco, ouvindo o som leve da respiração dela. — Meio que ele tentou pegar informações de novo e fomos atrás dele e bem… ele atravessou a rua sem olhar para os lados e acabou sendo atropelado e não resistiu. Como eu estava logo atrás dele e presenciei a cena, a polícia me recolheu pra depoimento e… — engoli seco — agora disseram que preciso ficar na Alemanha até tudo ser concluído.

Do outro lado, ouvi o ar dela falhar um pouco.

— Meu Deus, Rafael… você tá bem?

— Tô. — respondi, mesmo que minha cabeça dissesse o contrário. — Só cansado. Mas tô bem, de verdade.

Ela demorou alguns segundos antes de responder.

— O que eu posso fazer?

O cuidado em sua voz quase desmontou uma parte minha que eu tentava manter firme.

— Preciso que você adie minhas reuniões, compromissos… tudo o que tiver marcado na empresa nos próximos dias. Não quero que isso vaze. Pode prejudicar a empresa, e isso é a última coisa que eu preciso agora.

— Eu cuido disso. — ela disse com firmeza. — Pode deixar comigo.

Assenti sozinho, sentindo uma pontada estranha de alívio.

— Obrigado. — murmurei, e pela primeira vez desde toda a confusão, esbocei um sorriso real. — E… se cuida, tá? Estou ansioso para te ver.

Houve um silêncio curto, mas suficiente pra fazer meu peito vacilar.

Então ela respondeu, baixinho:

— Eu também tô.

Fechei os olhos, permitindo que aquele simples “também” aliviasse um pouco da tensão que eu carregava.

Ouvi Alana chamando ela ao fundo.

— Eu preciso desligar. Mas qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, você me avisa.

— Aviso, sim. — murmurei.

A ligação caiu, e eu fiquei ali, olhando para o celular como se ele pudesse me dizer o que sentir.

Não sabia se estava mais aliviado ou se a ansiedade tinha dado outro nó dentro de mim. A voz dela parecia meio tensa… não sei. Talvez fosse só preocupação.

Suspirei, deixando o celular cair no peito.

Mais uma noite longa pela frente.

***

O toque do celular rasgou o silêncio do quarto como uma lâmina. Abri os olhos num susto, com o coração batendo no pescoço. Olhei pro relógio na cabeceira.

03:17 da manhã.

Perfeito. A única hora em que eu finalmente tinha conseguido pegar no sono.

Franzi o cenho quando vi o número desconhecido piscando na tela. Um gelo amargo subiu pela minha garganta, aquela sensação instintiva de que não vem nada de bom.

Atendi.

— …Alô?

****************

(Visão de Thales)

O galpão velho ficava no fim de uma rua sem saída, cercado de mato alto e postes queimados. Lugar perfeito pra uma troca de informações.

Estacionei o carro a alguns metros, deixei o motor morrer devagar e fiquei um segundo parado, só observando.

Aquele galpão sempre me deu uma sensação estranha. Mas não de medo.

De… poder.

Respirei fundo e caminhei até a porta lateral. Raimundo já estava lá, encostado na parede com aquele jeito de quem tenta parecer seguro, mas não chega nem perto.

— Tá tudo certo? — perguntei.

Ele endireitou o corpo na hora.

— Tudo sob controle, chefe. Os homens já tão posicionados.

Assenti, passando os olhos pelo pátio vazio. Duas entradas, quatro janelas altas, uma câmera quebrada no canto. Cada ponto daquele lugar sempre foi útil pra mim, pra nós. Mas agora, como policial, eu precisava parecer atento demais… e ciente de menos.

— Reforça o perímetro — ordenei, como faria com qualquer equipe de investigação. — Não quero ninguém entrando ou saindo sem eu saber.

Raimundo acenou.

— Sim, senhor.

Empurrei a porta com o ombro e o rangido ecoou lá dentro.

Mesma escuridão, cheiro de ferro e poeira.

— Esse lugar tá estranho hoje — Raimundo comentou atrás de mim.

— Tá sempre estranho — respondi. — Mas nunca perigoso pra mim.

Ele não entendeu. Óbvio que não. Ninguém ali entendia metade do que eu queria dizer.

Caminhei até o centro do galpão. A Luz fraca passando pelos buracos do telhado, poeira descendo em fios. O tipo de cenário que faria qualquer policial comum desconfiar de emboscada.

E eu também avaliava tudo. As saídas, possíveis ataques e quem poderia estar escondido e onde.

Era hábito de comando.

— Manda os outros revisarem lá atrás — falei, apontando para o corredor estreito. — Quero relatório em cinco minutos.

Raimundo correu pra dar a ordem.

Fiquei sozinho de novo.

E então veio aquela sensação familiar, aquela fisgada no peito que sempre aparecia quando eu estava prestes a assumir meu lugar… não o de investigador, não o de policial exemplar.

Mas o outro.

O verdadeiro.

O que ninguém podia saber.

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