(Visão de Rafael)
Era domingo. Um daqueles dias em que o céu parece pesado, como se estivesse segurando a respiração junto comigo.
Estava parado na salinha da polícia, de braços abertos enquanto um dos agentes ajustava o grampo na minha camiseta e outro conferia pela milésima vez o colete por baixo do meu casaco. Aquele negócio pesava como um bloco de cimento, e mesmo assim parecia leve perto do que eu carregava na cabeça.
— Rafael, olha pra mim. — O policial mais velho, delegado Schmidt, segurou meu ombro, firme. — Não tenta ser herói. Chegando lá, mantém ele falando e nada de confrontar, ou de se aproximar demais. Deixa ele pensar que você tá sozinho. Nossas viaturas vão estar posicionadas. E quando for o momento certo, aparecemos. Entendeu?
— Entendi. — Minha voz saiu seca, mas não foi por desrespeito. Era medo mesmo, foco, raiva, tudo misturado.
Ele continuou:
— E lembra que o seu objetivo não é pegar ele. É sair vivo e a gente faz o resto. Você só segura a conversa. Olhe pros lados, mantenha o telefone na mão, código combinado. E respira, ok?
Assenti, mesmo sabendo que respirar estava sendo um desafio desde que acordei.
Porque, no fundo, enquanto eles mexiam em equipamento, enquanto me davam ordens e repetiam protocolos… só uma imagem insistia na minha mente: Lorena.
O sorriso dela naquelas chamadas de vídeo. O jeito que ela segurava um medo enorme mas ainda assim tentava parecer forte pra mim. As risadas curtas, a voz dizendo “se cuida, Rafael” como se aquilo fosse uma oração.
E eu ali, prestes a andar direto para a boca do lobo, pensando no instante em que finalmente ia voltar pro Brasil, olhar nos olhos dela e… falar. Falar tudo. Que eu não queria mais ficar longe. Que ela tinha virado o centro da minha cabeça e da minha vida sem nem perceber. Que eu estava indo pra esse encontro por ela também. Pra encerrar esse capítulo de uma vez.
Mas não era só ela.
Pensava na minha mãe, provavelmente rezando em algum canto da casa sem nem saber o motivo. Pensava no meu pai, doente, precisando de paz, não mais caos.
E pensava… no meu tio.
Na facção.
Nas palavras do Ruan ecoando dias antes: “É possível que seu tio esteja envolvido com essa facção e eles agora estarem atrás de vocês.”
Tentava empurrar esse pensamento pra longe, mas ele sempre voltava, teimoso.
Quando entrei na caminhonete descaracterizada que me levaria até o ponto de encontro, senti minhas mãos formigarem, um suor frio na nuca e a respiração curta outra vez.
— Última checagem — disse o policial ao meu lado. — Você vai chegar primeiro. A gente fica a uns trezentos metros. Não reage. Não encosta nele. Não deixa ele te cercar.
Eu só consegui murmurar:
— Tá. Eu… eu sei.
Enquanto o carro avançava pela estrada vazia, meu estômago se revirava. Cada quilômetro deixava tudo mais real.
O ponto de encontro estava a menos de cinco minutos, meu coração martelava como se quisesse romper o colete.
Eu estava indo encontrar Klaus.
E acabar com isso, pra sempre.
Desci do carro com as pernas meio bambas, tentando não demonstrar nada. A praça estava quase vazia, só uns bancos velhos, árvores fazendo sombra e aquele vento frio que parecia atravessar o osso. Nenhuma criança, nenhum casal passeando… nada. Klaus tinha escolhido o cenário perfeito e a polícia também.
Sabia que eles estavam ali, espalhados como fantasmas, dentro dos carros estacionados, abaixados nos bancos; dois comerciantes que, na verdade, eram policiais disfarçados; outros espalhados pela rua dos fundos.
Respirei fundo, tentando me convencer de que aquilo ia dar certo.
Fiquei parado no centro da praça, olhando para os lados. O tempo começou a se arrastar. Minutos longos demais e Klaus não aparecia. Por um segundo, pensei que ele tivesse fugido de novo. Mas então vi a sua silhueta na esquina.
Todo de preto, com óculos escuros mesmo no final da tarde e aquela postura irritante de sempre, como se ele fosse o centro do mundo e estivesse com o poder nas mãos.
Por um segundo pensei que Klaus tivesse fugido de novo.
Meu estômago revirou.
Ele veio caminhando devagar, como se saboreasse o momento. Quando parou diante de mim, abriu um sorriso torto.
— Então, Rafael… quanto vai passar pra mim?
Cerrei os dentes e suspirei.
— Quanto você quer?
Ele deu uma risadinha satisfeita, como se estivesse negociando um carro, não extorquindo alguém.
Respirei fundo e firmei os pés no chão.
— Sabe… eu já sei que foi você.
Klaus arqueou a sobrancelha.
— Sobre o quê?
— Que foi você quem atropelou o Derink de propósito — falei, encarando ele sem desviar. — Ele tava trabalhando pra você, não estava?
O sorriso dele se abriu mais ainda. Irritante.
— Você não tem prova nenhuma — cantarolou.
— Não preciso. — Minha voz saiu dura. — Eu te conheço.
Ele riu. Gargalhou mesmo, como se aquilo fosse a melhor piada do mundo.
— Ah, esse é o nosso segredinho, não é? — disse. — Mas relaxa… Derink mereceu morrer, o que fiz foi pouco e ele nem sofreu. Isso é passado. Agora eu quero meu dinheiro.
Meu estômago virou gelo.
Quando ele deu um passo pra chegar mais perto, eu imediatamente recuei.
— Fica onde você tá — avisei, com a voz mais seca do que eu pretendia.
Ele riu de novo.
— Tá com medo de mim, Rafael?
Fechei a cara, mas antes que eu conseguisse responder qualquer coisa… ele puxou a arma.
Na hora, o ar sumiu do meu peito.
O mundo ficou estreito, só eu e a ponta daquela arma.
— Eu tô cansado disso — Klaus disse, com a voz trêmula de fúria. — Você só me chama pra me ferrar! Chamou aqui pra acabar comigo, né? Por tudo o que eu fiz com você?!
Meu coração batia tão forte que parecia que ia rasgar o colete.
— Klaus… — murmurei, mas nem eu sabia o que ia dizer.
Ele mirou e eu vi os policiais saindo dos esconderijos, quando então, o som oco do tiro e o impacto no meu peito. Tropecei para trás, completamente em choque, sentindo a dor, mesmo que ainda estivesse com o colete.
O ar escapou dos meus pulmões e eu caí de joelhos por um segundo.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Aliança Provisória - Casei com um Homem apaixonado por Outra
Onde está o capítulo 419?...
Está chato continuar essa leitura mesmo no grátis só ler por metades quando atualiza tem uma tal de desvende os mistérios puta que pariu....
Afff piorou, agora não são dois, é nadaaaa!!!...
Vou fazê-lo novamente!!!! Dois capítulos por dia é um desrespeito!!!...
Ué cadê meu comentário?...
Esse é o terceiro livro, os dois primeiros caminharam bem, mas agora só dois capítulos por dia é muito pouco. Lembre-se de seu compromisso com os leitores...
Cadê o capítulo 319???????? Não tem?????...
Tá cada dia pior, os capítulos estão faltando e alguns estão se repetindo....
Gente que absurdo, faltando vários capítulos agora é 319.ainda querem que a gente pague por isso?...
Cadê o capítulo 309?...