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Aliança Provisória - Casei com um Homem apaixonado por Outra romance Capítulo 402

Aquela interação rápida, sob os olhares de outras pessoas, tinha sido quase tão intensa quanto o que aconteceu no banheiro.

Havia um jogo ali, uma linha tênue e perigosamente deliciosa entre o profissional e o pessoal, entre o público e o profundamente privado.

E nós dois éramos os únicos jogadores que conheciam as regras.

Ele tinha me olhado e, em seus olhos, eu tinha visto o eco de seus dedos na minha pele, a promessa de que aquilo era só um intervalo.

E essa promessa, proibida e tentadora, fez um sorriso largo e totalmente impróprio estampar meu rosto, sozinha na minha sala.

Era assustador. Era irresponsável. Mas, pela primeira vez em muito, muito tempo, eu me sentia completamente viva.

***

A chave girou na fechadura com o cansaço habitual de uma terça-feira qualquer, mas o peso no meu corpo hoje era diferente.

Não era só a exaustão do trabalho, era a tensão gostosa que ainda pulsava nas minhas veias, o eco dos sussurros de Rafael no meu ouvido, a coragem nova que aquilo tudo tinha injetado em mim.

Abri a porta esperando o silêncio reconfortante do apartamento e o som da TV nos desenhos da Alana.

Mas o primeiro cheiro que me atingiu foi o do seu cigarro. Caro, importado, e sempre o cheiro do controle.

Thales estava sentado na poltrona da sala, na penumbra, com um copo de uísque na mão. Apenas o vulto dele já fechou meu estômago, um reflexo antigo.

A luz do abajur iluminava seu perfil duro, e seus olhos se fixaram em mim quando eu entrei.

— Que horas são essas? — a voz dele saiu baixa, carregada de uma irritação que tentava se passar por preocupação.

Eu não respondi. Joguei a bolsa no sofá e tirei os sapatos com movimentos deliberadamente lentos.

A indiferença era minha nova arma, e eu estava aprendendo a usá-la.

— Estou falando com você, Lorena. O trabalho não justifica essa hora, a Alana já dormiu.

— A Joyce me mandou mensagem dizendo que ela jantou e foi para a cama às nove, como de costume — respondi, finalmente olhando para ele. Minha voz estava fria, plana. — E eu não devo satisfação dos meus horários a você.

Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso com o tom.

Nunca tinha falado assim.

Ele se levantou, deixando o copo na mesa com um baque. A sua postura era de quem quer intimidar, avançando alguns passos na minha direção.

O velho medo tentou subir, com um gosto amargo na garganta. Mas por trás dele, havia agora uma memória: as mãos de Rafael firmes na minha cintura, não para prender, mas para segurar.

— Você está com uma atitude estranha — ele rosnou. — O que está acontecendo?

Ignorei.

Caminhei até o meu quarto, abri a porta só o suficiente para ver seu rostinho iluminado pela luz do corredor, dormindo profundamente, abraçada ao coelho de pelúcia.

Aquela visão foi meu combustível, fechei a porta com cuidado e me virei para ele.

— Precisamos conversar.

— Agora você quer conversar? — ele ironizou, mas seguiu minha direção até a sala de jantar, onde a luz era melhor.

Eu não me sentei. Fiquei de pé do outro lado da mesa, mantendo a distância.

— Vou entrar com o pedido de divórcio na semana que vem.

As palavras caíram no silêncio da sala como um tijolo de vidro. Por um segundo, Thales não pareceu entender. Então, seu rosto se contorceu numa máscara de fúria pura.

— Não ache que irei aceitar esse divórcio, Lorena… Você é minha!

Com um ruído gutural de frustração, ele se virou e disparou em direção à porta. Não disse uma palavra. Apenas a fechou com tanta força que a parede tremeu.

O estrondo foi seguido por um som de vidro quebrando.

Eu não me mexi por alguns segundos. A respiração, que eu nem sabia que estava prendendo, saiu em um longo e trêmulo suspiro.

Meus joelhos fraquejaram e me apoiei na mesa.

Então, olhei para o chão, perto da porta. O porta-retratos que ficava na parede do corredor estava caído.

Caminhei até lá, devagar, e me agachei. Era a foto oficial do nosso casamento. Eu, de vestido branco, com um sorriso tenso.

Ele, de terno, com aquele olhar de posse que eu só percebi anos depois. Passei o dedo sobre o vidro quebrado, sem me cortar.

Sem hesitar, peguei a moldura, abri as travas atrás e tirei a foto. O papel fotográfico era firme, a imagem sorridente de uma mentira cristalizada. Segurei uma ponta com cada mão.

E, olhando para os meus próprios olhos assustados naquela foto, rasguei.

O som foi satisfatório.

Primeiro ao meio, separando nossos rostos. Depois, em pedaços menores, até que não restasse nada além de confetes de um passado que me aprisionava.

Joguei os pedaços no cesto de lixo, junto com o vidro quebrado e a moldura vazia seguiu depois.

Fiquei ali, olhando para o vazio na parede. Havia uma marca clara, um retângulo mais claro onde a moldura tinha ficado por anos. Era o espaço que aquela prisão tinha ocupado.

Agora, estava vazio. E eu, pela primeira vez, olhava para aquele vazio e via nele… possibilidade.

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