(Visão de Lorena)
A manhã chegou com a leveza de um tijolo. Mal tinha fechado os olhos, minha mente era um carrossel em alta velocidade, repetindo em loop cada segundo naquela despensa.
A aspereza da parede contra minhas costas, a força das mãos dele me segurando, o grito que ele abafou com seus lábios… e aquele orgasmo intenso, roubado, que me deixou trêmula por minutos.
Me senti uma adolescente e olha que nem na adolescência eu tinha feito algo tão arriscado, tão… sujo no bom sentido.
Um sorriso bobo insistia em aparecer no meu rosto no meio do trânsito, mesmo com o coração apertado de nervoso pelo que eu ia fazer.
Mandei uma mensagem rápida para Rafael mais cedo, informando que iria chegar um pouco mais tarde e que tinha um compromisso pessoal importante.
A resposta dele foi quase instantânea dizendo que tudo bem e me desejando boa sorte com o que eu fosse fazer…
E lá no fundo, eu sentia que ele sabia para onde estava indo.
Parei o carro em frente ao prédio imponente do fórum, onde ficava o cartório de registro civil. Meu coração batia tão forte que eu quase conseguia ouvir.
Respirei fundo, o ar da manhã ainda fresco. Era agora ou nunca.
Dentro, o ar era solene e silencioso, cheirando a papel velho e compromisso. A recepcionista me olhou com uma expressão neutra.
— Bom dia. Vim dar entrada no processo de divórcio.
Ela apenas acenou e me passou uma senha.
— Aguarde ser chamada na sala três.
Os minutos naquela cadeira de plástico duraram uma eternidade. Cada pessoa que saía de uma das salinhas laterais me fazia pular.
Até que um sino eletrônico tocou e apareceu o número da minha senha no painel. Sala três.
A sala era pequena, com uma mesa simples e duas cadeiras. A funcionária, uma mulher de meia-idade com óculos na ponta do nariz e um ar cansado mas não desagradável, me cumprimentou.
— Sente-se, por favor. Trouxe a documentação?
Entreguei a pasta com tudo… nossa certidão de casamento, cópias dos nossos RGs e CPFs, comprovantes de residência.
Minhas mãos tremiam levemente.
Ela folheou os papéis com experiência, assentindo.
— Ambos estão de acordo?
A pergunta simples me pegou.
— Eu… eu estou. Meu marido… vou conversar com ele e espero que ele assine.
Ela ergueu os olhos dos papéis e me olhou com uma expressão que já devia ter visto mil histórias iguais.
— Então, vamos por partes. No consensual, é mais rápido e mais barato. Vocês precisam entrar com uma petição conjunta, já com um acordo regulamentando tudo entre partilha de bens, se tem, pensão, guarda dos filhos… Vocês têm filhos?
— Uma filha de seis anos.
— Certo. O acordo tem que prever tudo sobre a guarda, visitação, pensão alimentícia. Tudo muito bem detalhado, para não dar margem a brigas depois. Se o seu marido concordar e assinar junto, o juiz homologa e em algumas semanas está tudo resolvido.
Ela falava com uma calma que era quase terapêutica. Mas então fez uma pausa e ajustou os óculos.
— Agora, se ele não quiser assinar… não aceitar o divórcio…
Meu estômago se contraiu.
— … a senhora pode entrar com o pedido sozinha. É o divórcio litigioso. Aí, você entra com a ação, ele é citado, e mesmo que ele não queira, o juiz vai analisar. Se ficar provado que a relação está insustentável e pela senhora estar aqui, imagino que esteja, o divórcio é concedido. Ele será obrigado a aceitar. Claro, o processo é mais longo, mais desgastante, e o acordo sobre os termos de guarda, pensão e bens será decidido pelo juiz, já que não houve consenso.
Ela viu o peso da informação no meu rosto e sua expressão suavizou um pouco.
— Olha, minha filha, o ideal é sempre o consensual. É mais pacífico para todo mundo, especialmente para a criança. Converse com ele e tente chegar a um acordo. Mas se ele não quiser… — ela fez um gesto com a mão, como se afastasse algo. — Você não é mais refém da vontade dele. A lei está do seu lado e você tem o direito de pôr fim a um casamento que não está mais funcionando.
Respirei fundo. As palavras dela eram um alívio e um susto ao mesmo tempo.
Thales ser obrigado a assinar. A ideia era poderosa, mas também me dava calafrios, pensando na fúria que isso desencadearia nele.
Houve um ruído de algo sendo arrastado, um grunhido abafado, e então a linha mudou. A respiração pesada e controlada que substituiu o choco me fez congelar. Cada músculo do meu corpo travou.
— Ela está segura, por enquanto. — A voz era de Thales. Plana, gélida, e carregada de uma violência que não precisava ser gritada para ser sentida.
— Thales? — minha voz saiu um fio de horror. — O que… o que você está fazendo? Onde está a Joyce? Pelo amor de Deus!
— Você acha que sou burro, Lorena? — ele perguntou, e eu podia ouvir o sorriso cruel na sua voz. — Acha que não fico de olho? Você saindo do cartório agora, com os papeizinhos na mão. E anda tendo um caso nojento com aquele seu chefe desgraçado. Achou que eu não ia descobrir?
Um calafrio percorreu minha espinha, subindo desde a base até a nuca, deixando um rastro de gelo. Meu mundo desmoronou ali, naquele carro estacionado.
Ele sabia. Sabia de tudo. O nó na minha garganta ficou tão apertado que eu mal conseguia respirar.
— O que você quer? — sussurrei, sentindo minha voz trêmula de puro terror.
— É simples. Você esquece essa porra de divórcio, esquece esse homem. Você volta a ser minha esposa direitinho. E aí, a sua babá… — ele fez uma pausa dramática, e eu ouvi Joyce soluçar mais alto ao fundo. — Aí ela continua viva. Se não…
— NÃO! — o grito saiu de mim antes que eu pudesse pensar. — Thales, não faça nada com ela! Ela não tem nada a ver com isso!
— Tudo a ver! — ele retrucou, sua voz subindo um tom, a frieza dando lugar a uma raiva contida. — Ela é a pessoa que cuida do que é mais importante pra você, não é? Então ela paga pelo seus pecados.
Ouvi um baque e então um grito. Um grito agudo, de dor pura e medo, que ecoou na linha e dentro da minha alma. Era a Joyce.
— PARA! POR FAVOR, PARA! — gritei, as lágrimas escorrendo livremente agora, meu corpo todo tremendo incontrolavelmente. — Não machuque ela! Não faça isso!
— Isso depende inteiramente de você, Lorena — a voz dele voltou ao tom controlado, como se estivesse discutindo um contrato. — Agora, você vai agir normalmente. Vai pro trabalho. Não vai olhar na cara desse seu amante, não vai se encontrar com ele, não vai trocar um bilhete sequer. Eu vou saber se isso acontecer. Tenho gente de olho em você, em todo lugar.
Instintivamente, meus olhos se arregalaram e vasculharam a rua, o estacionamento. Aquele homem lendo jornal no banco… a mulher no carro ao lado… todos pareciam suspeitos, todos pareciam olhar pra mim.
— Você vai inventar uma desculpa e vai pra casa agora. Diz que tá com dor de cabeça, que o carro quebrou, qualquer merda. Mas em uma hora, eu quero você dentro de casa. Entendeu?
— Sim… sim, entendi. Só… por favor, não machuca mais a Joyce. Ela é inocente.
— Inocente como você costumava ser — ele cuspiu. — Lembre-se que se você contar isso pra qualquer um. Pro seu chefe, pro seu irmãozinho querido… quem vai pagar, e caro, é a babá. E aí, não vai ser só um susto.
A linha caiu. O silêncio que veio em seguida foi mais aterrorizante que qualquer grito. Fiquei sentada, encarando o telefone mudo, as mãos tremendo tão forte que o celular quase escorregou.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Aliança Provisória - Casei com um Homem apaixonado por Outra
Onde está o capítulo *470* ?????????...
Kde o 470 ??? Aguardando...
É impressão ou a história ficou com partes puladas e sem detalhes ?...
Eita ela postou capítulos de outro livro é pacabá né...
Onde está o capítulo 419?...
Está chato continuar essa leitura mesmo no grátis só ler por metades quando atualiza tem uma tal de desvende os mistérios puta que pariu....
Afff piorou, agora não são dois, é nadaaaa!!!...
Vou fazê-lo novamente!!!! Dois capítulos por dia é um desrespeito!!!...
Ué cadê meu comentário?...
Esse é o terceiro livro, os dois primeiros caminharam bem, mas agora só dois capítulos por dia é muito pouco. Lembre-se de seu compromisso com os leitores...