O ar dentro do carro parecia ter virado água gelada. Eu engasgava, tentando respirar. Olhei para os papéis do divórcio, agora uma piada cruel no banco do passageiro.
Olhei para o cartório, o símbolo da liberdade que tinha acabado de virar uma miragem.
E agora?
Meu primeiro instinto foi ligar para Rafael. Mas as palavras do Thales ecoaram…
"Tenho gente de olho em você. Eu vou saber."
Se eu fosse até ele, se eu mandasse uma mensagem… o que ele faria com a Joyce?
O segundo instinto foi ligar para o Eduardo. Ele saberia o que fazer, mas a mesma ameaça…
"Se você contar… quem vai pagar é a babá."
Com certeza ele tinha gente na delegacia…
Estava encurralada. Completamente sozinha e encurralada.
Um soluço seco escapou da minha garganta.
Eu tinha que me recompor e agir normalmente. Como se meu mundo não tivesse acabado de desmoronar em cima de mim, esmagando qualquer lampejo de felicidade e esperança que eu tinha conquistado.
Com movimentos mecânicos, liguei o carro e enxuguei as lágrimas com as costas da mão, mas elas não paravam de vir.
Pego os papéis do divórcio, e os amassei com força, a raiva e o desespero se misturando. Joguei-os no fundo da bolsa, como se fossem um corpo de um crime.
E então, com as mãos trêmulas no volante, saí do estacionamento. Em direção à prisão e ao homem que, nesse momento, eu odiava e temia mais do que qualquer coisa no mundo.
(Visão de Rafael)
O almoço foi uma desculpa.
A reunião da manhã tinha sido longa e enfadonha, e o que eu realmente queria era um pouco de silêncio.
Queria pensar nela e na mensagem, dizendo que tinha um "compromisso pessoal importante".
Eu tinha um palpite do que era, e um orgulho quente e ansioso se espalhava no meu peito. Lorena estava tomando as rédeas. Era tudo que eu queria para ela.
Entrei no carro, o cheiro do couro novo misturado ao aroma do café que eu tinha levado comigo.
O trânsito estava razoável para a hora. Liguei o rádio em baixo volume, mas minha cabeça estava longe.
Estava imaginando ela no cartório, séria e linda, assinando papéis que a libertariam. Estava imaginando o alívio que ela sentiria, o medo também, mas a coragem predominando.
Mal podia esperar para vê-la à tarde e ler nos seus olhos que ela podia ser minha agora.
Parei no semáforo grande da Avenida Central. O sol batia no capô, e eu batia o ritmo de uma música no volante, distraído. Olhei para o retrovisor, apenas um hábito vendo os carros parados atrás.
Uma moto filtrando pelo corredor à esquerda. Tudo normal.
O sinal ficou verde, soltei o freio e o carro andou suavemente para frente, quando vi, pelo canto do olho esquerdo, um vulto marrom se movendo rápido demais.
Um jipe velho, vindo da contramão, desgovernado, cortando a pista em um ângulo absurdo direto para o meu lado.
Não deu tempo de reagir nem de pensar, o impacto foi forte e um estrondo surdo e agudo ao mesmo tempo encheu meus ouvidos.
Meu carro foi lançado por causa da pancada, senti uma dor aguda na perna, algo sólido e duro bater no meu ombro e minha cabeça foi jogada com força contra o vidro lateral…
Quando o movimento parou, eu estava de lado, ou melhor, o carro estava. O vidro do passageiro estava estilhaçado, e eu pendurado pelo cinto de segurança, que agora me cortava o peito.
Um silêncio ensurdecedor veio primeiro, abafado pelo zumbido agudo nos meus ouvidos.
Depois, a dor chegou.
Veio em ondas. Uma pontada aguda e latejante na perna esquerda, tão intensa que me fez gritar, mas o grito saiu como um gemido rouco.
Tentei me mover e entender minha posição, mas qualquer movimento na perna era um raio de fogo branco subindo pela minha coluna.
Olhei para baixo e a porta do motorista estava completamente amassada para dentro. O painel de metal, torcido como papel alumínio, estava pressionado contra minha perna, prendendo-a.
Não conseguia vê-la direito, mas a pressão era enorme, e a dor… dizia que algo estava muito errado.
Tentei puxar a perna, um ato de puro instinto, mas foi como tentar arrancar o próprio membro.
Uma náusea súbita subiu pela minha garganta, e meu campo de visão escureceu nas bordas por um segundo.
As portas da ambulância se fecharam, e o veículo arrancou, com a sirene agora alta e clara. O técnico ao meu lado falava comigo, checava meus sinais, mas as palavras dele chegavam abafadas, como se eu estivesse debaixo d'água.
O último pensamento consciente, antes da névoa da dor e do choque tomar conta, foi do sorriso dela. Do sorriso que eu esperava ver quando ela voltasse do cartório.
E um medo profundo que qualquer dor física, de que eu nunca mais ia ver aquele sorriso de novo.
Voltei a consciência de novo, percebendo que ainda estava na ambulância… apaguei por algum momento?
A enfermeira ao meu lado mexia em algo no meu braço, um acesso venoso, enquanto falava números e termos que eu não conseguia processar.
O mundo era um borrão de dor e luz fluorescente. Mas então, por cima do ruído da sirene e do motor, um som familiar insistiu, era o toque do meu celular.
Ele estava no bolso do meu paletó. A enfermeira olhou para o bolso, depois para mim.
— É importante? — ela perguntou, com a voz competente.
— Pode ser… — consegui dizer.
Ela pegou o celular com cuidado e entregou na minha mão que não estava presa.
Era um número desconhecido. Meu coração, que já batia acelerado por causa do choque e da dor, deu uma guinada estranha.
Respirei fundo, o que fez uma pontada aguda no peito, e deslizei o dedo para atender.
— Alô? — minha voz saiu fraca, rouca.
Do outro lado, houve um silêncio. E então, uma voz masculina, calma e quase amigável, se não fosse pelo tom que deixava a pele arrepiada.
— Que susto, hein, Rafael? Tudo bem aí?
O ar congelou nos meus pulmões. Não era um conhecido…
— Quem é você? — grunhi.
Uma risada baixa, uma coisa desagradável e úmida.
— Ainda pergunta? Acho que o recado no seu carro não foi claro o suficiente. Nada terminou… não lembra da mensagem?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Aliança Provisória - Casei com um Homem apaixonado por Outra
Onde está o capítulo *470* ?????????...
Kde o 470 ??? Aguardando...
É impressão ou a história ficou com partes puladas e sem detalhes ?...
Eita ela postou capítulos de outro livro é pacabá né...
Onde está o capítulo 419?...
Está chato continuar essa leitura mesmo no grátis só ler por metades quando atualiza tem uma tal de desvende os mistérios puta que pariu....
Afff piorou, agora não são dois, é nadaaaa!!!...
Vou fazê-lo novamente!!!! Dois capítulos por dia é um desrespeito!!!...
Ué cadê meu comentário?...
Esse é o terceiro livro, os dois primeiros caminharam bem, mas agora só dois capítulos por dia é muito pouco. Lembre-se de seu compromisso com os leitores...