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Aliança Provisória - Casei com um Homem apaixonado por Outra romance Capítulo 410

A semana tinha se arrastado numa névoa de terror. Meus olhos no espelho estavam fundos, cercados por olheiras que nem a melhor maquiagem do mundo esconderia.

Foi por isso que, quando a campainha tocou naquela tarde de quinta-feira, meu coração deu um salto para a garganta. Podia ser ele, voltando mais cedo.

Ouvi os passos rápidos de Célia, indo atender. Seu tom de voz, normalmente condescendente, ficou um pouco surpreso.

— Eduardo! Que surpresa.

Eduardo.

O nome cortou a névoa como um raio. Meu irmão, aqui. Antes que eu pudesse me recompor, ouvi a voz dele, firme e saudável e senti um alívio que quase me fez desabar.

— Bom dia, dona Célia. Vim ver a Lorena. Ela tá em casa?

— Está sim, mas…

Corri os dedos pelo cabelo, tentando parecer menos um fantasma, e saí do corredor em direção à sala.

E foi então que vi a cena que congelou meu sangue de Eduardo parado na porta da sala, e Thales saindo do quarto de Alana, na direção oposta.

Os dois se olharam por um momento e Thales apenas deu um leve aceno de cabeça e passou por ele, mancando da perna.

Meu irmão, com seu olhar de águia, não perdeu o detalhe. Seus olhos acompanharam Thales até a porta da frente, que se fechou com um baque, antes de virem para mim.

A preocupação neles se aprofundou.

— Lorena — ele disse, simplesmente, abrindo os braços.

Eu atravessei a sala e me joguei no seu abraço, por um segundo me permitindo sentir uma lasca de segurança. Ele me apertou forte, mas seu corpo estava tenso.

— Você tá com uma cara horrível — sussurrou no meu ouvido, baixinho.

— São as noites mal dormidas — menti, me soltando e tentando um sorriso que não chegou aos olhos.

Ele não acreditou, é claro. Seu olhar foi do meu rosto para a porta por onde Thales tinha saído, e depois para Célia, que estava plantada na entrada da cozinha como uma sentinela venenosa.

— O Thales se machucou? — Eduardo perguntou, direto, para mim, mas sua voz carregava uma pergunta maior.

— Ele disse que… se machucou em uma briga de rua quando tentou defender uma pessoa — minha voz soou fraca, falsa até para meus próprios ouvidos.

Sabia que era mentira, aquele ferimento tinha sido mais grave do que algo causado por uma briga. Mas, não podia me importar menos com as coisas que ele fazia escondido.

Eduardo apenas assentiu, mas eu vi os músculos da sua mandíbula se contraírem. Ele sabia que eu estava mentindo.

— Preciso conversar com você, sobre o problema da nossa mãe. Tem um lugar mais quieto?

Olhei para Célia. Seus olhos estavam grudados em nós, cheios de desconfiança.

Respirei fundo e apontei para o corredor.

— Podemos ir no meu quarto. Lá tem uma pasta com uns exames dela.

Caminhamos em silêncio até o quarto. Mal entrei e ele fechou a porta com um movimento rápido, girando a chave e trancando nós dois ali.

Em dois passos, suas mãos grandes se fecharam sobre meus ombros.

— Chega, Lorena. O que tá acontecendo? Eu quero a verdade, agora!

— Não é nada, Edu, sério… — tentei, desviando o olhar.

— Você tá tremendo. — Sua voz ficou mais suave, mas não menos intensa. — Você voltou a confiar em mim, ou foi só da boca pra fora lá no hospital? Porque eu tô aqui, irmã. Mas preciso saber no que tô me metendo.

Foi a última gota.

— Eduardo, não…

— Você ainda lembra como usar. Eu te ensinei. — Ele não estava perguntando, era um fato.

Na adolescência, teimoso, ele me levou a um estande de tiro achando que era "divertido". Eu odiei, mas aprendi.

— Não quero que você use, mas quero que você tenha e se proteja caso seja necessário. Esconda em lugar que só você saiba. Se ele… se as coisas ficarem feias, e você estiver sozinha, você se defende. Pela Alana.

Meus dedos tremiam quando ele colocou a arma fria e surpreendentemente pesada na minha mão. Era um objeto de morte, de um mundo que não era o meu.

Mas olhei para ela, e depois para os olhos sérios do meu irmão, e vi que aquele mundo tinha invadido o meu.

Sem dizer mais nada, virei-me e entrei no banheiro. Abri o armário, peguei a velha caixa de plástico onde guardava esmaltes.

Despejei todos os vidros no lixo, num tilintar absurdo. No fundo da caixa, coloquei a arma vendo como ela cabia perfeitamente. Fechei a tampa e guardei no fundo do armário, atrás das toalhas limpas.

Quando saí, Eduardo estava parado no mesmo lugar.

— Vou começar a investigar o paradeiro da Joyce de forma discreta. Quando a gente tiver ela em segurança… — seus olhos ficaram duros como aço. — Aí prendemos o desgraçado. E você vai ser livre dele.

Meu queixo tremia. Não era um plano perfeito, era perigoso, frágil. Mas era um plano. E eu não estava completamente sozinha.

Me joguei em seus braços novamente, num abraço de agradecimento mudo.

— Obrigada — sussurrei, com minha voz embargada.

— Nada de obrigada. É minha função. — Ele me soltou e olhou para a porta. — Agora, vamos sair daqui e eu vou embora, antes que aquela mulher lá fora desconfie. Você fica forte, entendeu? E fica esperta.

Ele destrancou a porta e saiu, retomando a postura descontraída de quem veio resolver papelada chata.

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