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Aliança Provisória - Casei com um Homem apaixonado por Outra romance Capítulo 414

— Conte! — desafiei, e um sorriso sem humor esticou meus lábios.

Era assustador, mas também libertador. Baixei meu tom para que só ela pudesse ouvir.

— Conte pra ele que você não aguenta mais o serviço sujo dele. Que a pessoa que ele sequestrou tá sendo torturada em algum lugar, e você aqui, lavando xícara e julgando meu pão de forma. Conte tudo. Acho que ele vai adorar saber que a mamãezinha tá com nojinho.

O seu rosto perdeu a cor. Ela não sabia dos detalhes, mas sabia o suficiente. Sabia que algo muito errado estava acontecendo e meu despejo de verdades a atingiu como um balde de água gelada.

— Você… você está louca. Descontrolada. É por isso que ele tem que te conter — ela sussurrou, mas a sua coragem tinha ido embora.

— Não, Célia. O que tem que acontecer é você ir embora. Agora. — Apontei para a porta da cozinha. — Pegue suas coisas e chame um táxi. Volte para a sua casa. Eu não quero você mais aqui.

Ela riu, um som estridente e sem graça.

— Eu não vou a lugar nenhum. O Thales…

— O Thales não está aqui — interrompi, fechando a distância entre nós. Eu não era mais alta que ela, mas naquele momento, me senti gigante.

A dor no pescoço latejava, lembrando-me do perigo real, mas também da minha sobrevivência. Eu tinha sobrevivido às mãos dele. Não ia me curvar à língua dela.

— E eu estou mandando você sair da minha casa. Se você não sair de boa vontade, eu te ponho para fora. Pode ter certeza que o escândalo que eu vou fazer no corredor vai ser muito pior para a imagem perfeita do seu filho do que qualquer desobediência minha.

Ela me olhou, e pela primeira vez, vi algo além de desprezo em seus olhos, medo. Medo de mim. Medo da fera acuada que ela ajudou a criar.

— Você é uma ingrata. Uma mal-agradecida — cuspiu, mas já estava recuando, tirando o avental.

— Sou muitas coisas, Célia. Sobrevivente é uma delas. Agora, ande. — Cruzei os braços, fincando os pés no chão.

Ela saiu da cozinha, resmungando baixinho, e desapareceu no corredor em direção ao quarto de Alana.

Alguns minutos depois, arrastando uma mala pequena, ela passou pela sala de estar. Alana a observou em silêncio.

— Adeus, vovó — disse Alana, com uma frieza que partiu meu coração.

Célia nem respondeu. Abriu a porta e saiu, fechando-a com um clique seco, mas sem o estrondo dramático do filho.

O silêncio que se instalou na casa foi diferente.

Ainda carregado de perigo, ainda sufocante por causa da Joyce e da ameaça do Thales, mas aquele veneno específico, aquele olhar julgador constante, tinha ido embora.

Respirei fundo, sentindo o ar entrar e sair dos pulmões sem a pressão daquela presença.

Não levou nem cinco minutos e a campainha tocou novamente.

Um impulso de raiva pura me tomou. Ela tinha voltado. A velha teimosa tinha voltado para dar o troco.

— Já vai pro inferno, Célia! — gritei, abrindo a porta com mais força do que o necessário, pronta para jogar na cara dela tudo o que não tinha dito antes.

Mas não era ela.

Parada no meu hall, com um sorriso leve e um ar neutro, estava uma mulher. Morena, de cabelo preso, vestindo jeans e uma blusa simples.

A nova vizinha. Eu a tinha visto algumas vezes no elevador, trocamos acenos curtos, nada mais.

Meu coração, que estava acelerado pela raiva, deu uma guinada de surpresa e, instantaneamente, de desconfiança aguda.

Qualquer pessoa nova na minha porta era uma ameaça em potencial.

— Oi, tudo bem? — ela cumprimentou, com a voz calma. — Desculpa incomodar. Ouvi uns barulhos… b**e-boca… e vim ver se estava tudo certo por aqui.

Forcei os músculos do meu rosto a formarem algo parecido com um sorriso. Era amigável. Tão amigável que parecia falso até pra mim.

— Tá tudo… tudo sob controle. Briga de família, sabe como é. Obrigada pela preocupação, mas eu… eu tô um pouco ocupada no momento.

O espaço era pequeno, e a proximidade com aquela estranha me deixava ainda mais nervosa.

— O que está acontecendo? O Rafael… ele está bem? Aliás, sou Glayce.

Ela acenou com a cabeça, em um gesto rápido.

— Foi ele quem me mandou. Ele… está preocupado. O silêncio da senhora o deixou desconfiado.

Desviei o olhar, sentindo um nó de culpa e medo se formar na garganta.

— Eu não posso… não quero trazer problemas para ele. É perigoso… vocês não vão entender. Minha voz tremia.

— O que está acontecendo? Você pode me falar.

— Não posso, é… só por favor, diga a ele… diga que o meu irmão, o Eduardo, já sabe de tudo. Ele é delegado e vai cuidar de tudo. É mais seguro assim.

Glayce me estudou por alguns segundos. Seu olhar era penetrante, como se estivesse avaliando cada mentira, cada omissão no meu rosto.

— Ele não vai gostar de ficar de fora — ela disse finalmente. — Mas vou passar a mensagem. Enquanto isso… — ela fez uma pausa. — Se a senhora precisar de qualquer coisa. Qualquer sinal, bata na minha porta. Apartamento 302. Eu estou aqui para protegê-la.

Me proteger.

A palavra soou estranha e maravilhosa ao mesmo tempo. Eu nem sabia como me sentir. Aliviada? Aterrorizada por tê-la envolvido? Agradeci com um aceno de cabeça mudo, as palavras presas.

Ela assentiu de volta, um gesto final, e destrancou a porta. Eu a segui de volta até a sala, tentando compor o rosto e parecer normal. Quando abrimos a porta da frente para ela sair, o mundo desabou.

Thales estava parado no corredor, a poucos metros de distância com a chave ainda na mão.

Ao lado dele, com um sorriso venenoso de satisfação, estava Célia. A bruxa tinha voltado, e trouxe o diabo consigo.

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