Ele gostava de ver meu desespero.
— Fica tranquila. Só a coloquei em um apartamento mais confortável com cama decente e comida quente. Nada daquela porcaria de sítio.
Ele sabia.
Meu estômago virou. Era uma emboscada.
O Eduardo e os homens dele estavam indo direto para uma armadilha. Ele tinha descoberto a operação.
— Onde ela está? — insisti, tentando manter a voz estável, mas era impossível.
— Isso não importa agora. — Sua mão voou e agarrou meu queixo, forçando-me a olhá-lo nos olhos. — O que importa é que se você continuar sendo uma boa garota e se comportar direitinho na nossa viagem… eu solto a babá. Tudo pode acabar bem, Lorena. Eu te amo, você sabe disso. Só quero que a gente fique bem.
Ama.
A palavra, na boca dele, era a coisa mais nojenta que eu já ouvi.
Me contorci, tentando me soltar, e na confusão, a borda afiada do caco de vidro que eu ainda segurava cortou a ponta do meu dedo. Uma linha fina de sangue apareceu instantaneamente.
— Toma cuidado — ele disse, soltando meu queixo e se levantando, como se meu sangue fosse apenas um pequeno inconveniente. — Limpa essa bagunça e vai se acalmar. Amanhã é um grande dia.
Ele saiu da cozinha, deixando-me ajoelhada no meio dos cacos, com o dedo latejando e a mente em pandemônio.
Ele descobriu.
A frase martelava dentro do meu crânio.
Ele descobriu e moveu a Joyce. O Eduardo vai cair numa armadilha. Rafael… meu Deus, Rafael…
Com movimentos mecânicos, juntei os cacos maiores, jogando-os no lixo com um tilintar que parecia denunciar cada um dos meus pensamentos de traição.
Limpei o sangue do dedo com um papel toalha, vendo que a ferida era superficial, mas a dor era o de menos.
Precisei agir normal. Respirei fundo, lavei as mãos, e caminhei até o quarto com uma calma que não sentia e tranquei a porta.
Assim que o clique do trinco ecoou, corri para o banheiro e me tranquei de novo.
Minhas mãos, agora sujas de sangue seco e suor, vasculharam atrás das toalhas até encontrar o celular frio e morto. Liguei-o, sentindo os segundos de inicialização como se fosse uma tortura.
Digitei uma mensagem rápido para Glayce. "Thales mudou Joyce de lugar. É uma armadilha, cuidado!”
Mandei a mensagem e fiquei olhando para a tela, com o coração batendo na garganta.
Os segundos se arrastaram e nada.
Um, dois, cinco minutos. O desespero começou a virar um gosto amargo na minha boca. Ela não tinha recebido? Estava ocupada? Tinha sido pega?
Então, a tela piscou. Uma única palavra, como sempre.
***"Ok."***
Apenas "Ok". Nada mais.
Era o suficiente? Ela entendeu a gravidade? Conseguiu avisar o Eduardo a tempo?
Guardei o celular no esconderijo, e dei descarga, o som alto abafando o grito que eu queria soltar. Lavei o rosto com água gelada, tentando apagar o pânico.
Coloquei um band-aid no dedo, o gesto banal em contraste com o furacão dentro de mim.
Saí do banheiro e olhei para a cama. Alana dormia profundamente, seu rostinho um monumento à paz que eu não sentia há meses.
Deitei ao lado dela e envolvi seu corpinho quente com cuidado, mas não consegui fechar os olhos.
A ansiedade era um bicho vivo roendo minhas entranhas. Já era meia-noite e quinze. A operação deveria ter começado. Eles já tinham invadido o sítio vazio? Tinham caído na armadilha? O Eduardo estava ferido, ou pior?
E Rafael… onde ele estava? Esperando por notícias, tão impotente quanto eu? Ou ele estava lá, no meio do perigo, tentando consertar tudo?
(Visão de Rafael)
O relógio no painel do carro marcava 00:05. Cada músculo do meu corpo estava travado numa tensão quase insuportável.
Cinco minutos após a meia-noite. O silêncio no rádio era ensurdecedor. Porra, Eduardo, preciso de algo, um sussurro, um estalo, qualquer coisa.
Raul estava imóvel ao volante, seus olhos fixos no prédio, mas eu sabia que toda a sua atenção estava dividida na mesma estática maldita.
— O que tá acontecendo? — a pergunta saiu como um rosnado, mais para mim mesmo do que para ele.
Foi quando dois aparelhos vibraram ao mesmo tempo, um som que fez meu coração dar um salto para a garganta.
Meu celular, com a mensagem da Glayce. O rádio de Raul, com a chamada criptografada do Eduardo.
Nossos olhos se encontraram por uma fração de segundo, um flash de puro instinto. Meu coração agora não batia mais e parecia querer arrombar as costelas para sair.
— Você atende ele — ordenei a Raul, enquanto destravava meu celular com dedos que pareciam de gelo.
A mensagem da Glayce era curta, mas cada palavra era um golpe:
"ABORTAR. Joyce NÃO está mais no sítio. Thales a mudou hoje. É CILADA."
— E agora? — perguntei, com a frustração tornando minha voz rouca. — Ele vai viajar com elas amanhã! A gente não tem tempo pra montar outro cerco, outro plano!
— A gente vai encontrar um jeito. Agora sabemos que ele está alerta, que se move rápido. Temos que ser mais rápidos. Thales pode não saber de certo que estávamos atrás dele… tomei cuidado para isso e sei que vocês também. Mas ele é policial e sabe muito bem que um dos maiores erros cometidos por sequestradores, é manter a refém muito tempo em um lugar.
Mais rápidos. A frase ecoou no vazio do meu cérebro. Como ser mais rápido? Ele tinha a vantagem, a iniciativa.
E foi então, no meio do desespero e da raiva, que a ideia veio. Não uma ideia boa, muito menos limpa. Era uma ideia perigosa, suja e desesperada. Mas era a única que podia virar o jogo na velocidade que a gente precisava.
Fiquei em silêncio por um momento tão longo que o Eduardo chamou pelo rádio.
— Fonseca?
— Eduardo — eu disse, minha voz mudando, ficando mais plana e decidida. — Você tá certo. Deixa como está. Ele não precisa saber que a gente sabe. Deixa ele pensar que a armadilha funcionou, que vocês foram pegos com as calças na mão.
— O que você tá pensando? — a pergunta do delegado veio carregada de desconfiança imediata.
Eu olhei para Raul, que me observava com a mesma atenção intensa. Um pequeno sorriso, sem humor algum, esticou meus lábios.
— Agora… — falei devagar para o rádio, — chegou a parte da jogada que o senhor, delegado, fica completamente fora. Boa noite.
Desliguei a comunicação antes que ele pudesse protestar.
Raul me olhou, com os olhos estreitados.
— O que você pretende, chefe?
— Agora é a hora de parar de jogar na defesa, Raul. — Senti a adrenalina da nova decisão, errada e perigosa, começando a bombear. — Ele quer nos tirar do jogo, nos distrair com a Joyce, e sumir com elas. Mas não vamos deixar.
— Como?
— A gente vai tocar num vespeiro. Num que vai doer tanto nele, que ele não vai poder sair da cidade amanhã. Vamos forçá-lo a olhar para outro lado e enquanto ele estiver distraído, a gente ganha o tempo que precisamos para achar a Joyce de verdade e tirar a Lorena e a Alana dali.
— Qual vespeiro? — a pergunta de Raul era pura expectativa.
Ele já estava dentro.
Eu peguei meu celular pessoal, e comecei a digitar um nome no buscador. O nome que tinha surgido nos documentos de São Paulo. O elo financeiro, a possível fraqueza.
— A mulher — Olhei para Raul. — Se ela é tão importante para o esquema financeiro dele, e para os Doze Selos… vamos ver quanto o Thales se mexe quando a gente cutucar o patrimônio dela. Ou melhor, quando a gente começar a desfazer ele.
Era arriscado declarar guerra abertamente a uma facção criminosa. Mas era a única maneira de travar o relógio que Thales tinha ligado contra nós.
Hora de virar o caçador.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Aliança Provisória - Casei com um Homem apaixonado por Outra
Onde está o capítulo *470* ?????????...
Kde o 470 ??? Aguardando...
É impressão ou a história ficou com partes puladas e sem detalhes ?...
Eita ela postou capítulos de outro livro é pacabá né...
Onde está o capítulo 419?...
Está chato continuar essa leitura mesmo no grátis só ler por metades quando atualiza tem uma tal de desvende os mistérios puta que pariu....
Afff piorou, agora não são dois, é nadaaaa!!!...
Vou fazê-lo novamente!!!! Dois capítulos por dia é um desrespeito!!!...
Ué cadê meu comentário?...
Esse é o terceiro livro, os dois primeiros caminharam bem, mas agora só dois capítulos por dia é muito pouco. Lembre-se de seu compromisso com os leitores...