O carro parou na borda do que mal podia ser chamado de rua. Era um beco estreito, entupido de lixo e desespero.
A luz do dia não chegava direito aqui.
O fedor era o primeiro golpe, uma mistura nauseante de mijo, lixo apodrecido e, por baixo de tudo, o cheiro químico e doce de crack sendo queimado em algum canto escuro.
— Espera aqui — eu disse para o segurança do Alessandro, um cara grande e quieto. — Se eu não sair em quinze minutos, você entra. Mas só se não ouvir nada.
Ele assentiu, sua mão já descansando sob o paletó, perto da arma.
Respirei fundo, tentando preparar meus pulmões para o ar podre, e entrei no beco.
A muleta era um estorvo, arrastando no chão úmido e desigual. O cheiro piorou, e eu tive que cobrir o nariz com a manga da jaqueta, tossindo baixo.
O fedor de droga era tão espesso que parecia grudar na garganta.
Parei em frente a uma porta de madeira podre, com a pintura descascada há décadas.
Era aqui, um lugar que eu conhecia, e que visitava nos meus piores pesadelos. Bati três vezes, um código antigo, de uma vida que eu tinha enterrado.
Houve um silêncio. Depois, passos pesados e a porta se abriu alguns centímetros, presa por uma corrente.
O rosto que apareceu no vão era mais velho do que eu lembrava. Marcado por cicatrizes, olhos fundos e cheios de um ódio que o tempo não tinha apagado.
Ciro.
O nome veio à mente como um sabor amargo.
Seus olhos me reconheceram instantaneamente e a surpresa deu lugar a uma raiva pura e instantânea, tão forte que eu pude sentir o calor vindo dele.
— Sai daqui — ele rosnou, e começou a empurrar a porta para fechá-la.
— Ciro, espera. Precisamos conversar.
— Não tenho nada pra falar com você. SAI! — o grito dele ecoou no beco estreito.
Antes que a porta se fechasse, eu segurei, o impedindo e ele então a soltou, sacando a pistola velha, mas bem cuidada e apontou direto para o centro da minha testa.
O cano de metal frio tocou minha pele.
— Você não ouviu? Vai embora, ou eu te mato aqui mesmo e jogo teu corpo no lixo. Seria um favor pro mundo.
Eu não recuei.
O medo existia, claro, um frio na espinha. Mas era ofuscado por uma necessidade maior. Olhei direto para os olhos furiosos dele.
— Eu amo uma mulher, Ciro. E ela está em perigo. Um perigo que só você pode me ajudar a afastar.
Ele riu, um som seco e amargo.
— Que porra isso tem a ver comigo? Problema seu. Agora, pela última vez, some.
O gosto amargo na minha boca piorou. Era hora de jogar a carta que eu não queria tocar.
— Você me deve um favor, e sabe disso. — As palavras saíram baixas.
O efeito foi instantâneo e violento. Os seus olhos, já cheios de ódio, se encheram de algo a mais, de dor.
Uma dor tão profunda que virou lágrimas de raiva. Ele pressionou o cano da arma com força contra minha testa, fazendo minha cabeça recuar um pouco.
— Um FAVOR? — Gritou — Por sua causa, minha irmã MORREU, seu filho da puta! Ela tá morta! Enterrada! Porque se meteu com a gente do teu tipo, maldito, porque você não conseguiu controlar a merda do seu lado!
A culpa, velha conhecida, apertou meu peito como um torno.
A imagem da Elma, a irmã mais nova dele, sorridente e depois pálida num caixão, passou pela minha mente.
— Eu sei — minha voz saiu rouca. — E a culpa não foi só minha, Ciro. Ela procurou aquele caminho. Ela quem foi atrás do dinheiro fácil e eu tentei tirá-la dali… mas ela não quis.
Fiz uma pausa, engolindo o nó na garganta.
— E você… você teria tido o mesmo destino se eu não tivesse te tirado daquela cela naquela noite. Você ia ser esfaqueado. Eu paguei a fiança, eu te tirei. Você sabia demais e eles iam te calar.
Ele tremia, sentindo a arma ainda pressionada na minha testa.
A guerra entre a gratidão pelo passado e o ódio pelo que aconteceu com a irmã era visível em cada músculo contraído do seu rosto.
Com um gemido de frustração e dor, ele baixou a arma. Não a guardou, apenas a apontou para o chão.
— O que aconteceu com você, Rafael? — a pergunta saiu quase um sussurro. — O cara que me tirou da cadeia… ele não faria uma proposta dessas.
Eu segurei seu olhar. A resposta foi a mais simples e verdadeira que eu podia dar.
— Mexeram com a mulher que eu amo.
Ele entendeu.
Talvez pela primeira vez desde que abriu a porta, ele viu em mim não o chefe, o patrão, o devedor, mas apenas um homem desesperado. E no mundo dele, um homem desesperado era a coisa mais perigosa que existia.
Ciro fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. Quando abriu, a decisão estava tomada.
— Até que horas?
— Até às dez da manhã.
— É pouco tempo — ele protestou, mas era fraco.
Sabia que já estava calculando, planejando.
— Eu tenho pouco tempo, Ciro. Você também. Aceita ou não?
Ele mordeu o lábio inferior, olhando para o chão sujo do beco, depois para a escuridão do seu cubículo, e finalmente, para o horizonte sujo acima dos telhados.
O horizonte que ele podia trocar por um visto e uma praia no outro lado do mundo.
— Passa o endereço e metade adiantada. Em bitcoin. Se não cair em uma hora, o acordo some.
— Feito — disse, aliviado por dentro, mas com um gosto de cinzas na boca. Eu tinha acionado um demônio do meu passado. — O Raul vai entrar em contato com os detalhes e o pagamento.
Não disse mais nada. Virei-me e comecei a mancar de volta pelo beco, sentindo o peso do cano da arma dele ainda fantasmagórico na minha testa, e o peso muito maior do que eu tinha acabado de colocar em movimento.
Era um jogo alto, sujo e perigoso. Sei que seria perigoso atacar a ilha de cara assim e eu não faria algo do tipo, iria atacar o vespeiro primeiro.
Fazer Thales olhar para trás, e vir para São Paulo, para o dinheiro suas encomendas que estavam prestes a virar fumaça… mais uma. E, com sorte, dar a mim e ao Eduardo as horas preciosas que precisávamos para tirar Lorena da frente desse furacão.
Iria mandar o endereço do galpão que Raul puxou… sabiamos que era dos doze selo porque tinha envolvimento do Thales.. mas agora, sabendo que ele faz parte dos doze… Iria chegar no desgraçado qualquer destruição daquele lugar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Aliança Provisória - Casei com um Homem apaixonado por Outra
Cadê o capítulo 470???¿ Cadê o capítulo 473???????...
Onde está o capítulo *470* ?????????...
Kde o 470 ??? Aguardando...
É impressão ou a história ficou com partes puladas e sem detalhes ?...
Eita ela postou capítulos de outro livro é pacabá né...
Onde está o capítulo 419?...
Está chato continuar essa leitura mesmo no grátis só ler por metades quando atualiza tem uma tal de desvende os mistérios puta que pariu....
Afff piorou, agora não são dois, é nadaaaa!!!...
Vou fazê-lo novamente!!!! Dois capítulos por dia é um desrespeito!!!...
Ué cadê meu comentário?...