(Thales)
A luz piscou.
Não era a luz do teto, podre e fraca.
Era a luz dentro da minha cabeça. Cada piscada vinha acompanhada de uma nova explosão de branco e dor.
O soco no queixo, seco e preciso, fez minha cabeça girar para o lado.
Senti algo ceder no meu nariz de novo, um estalo úmido que me fez ver estrelas.
O gosto de cobre, velho e novo, encheu minha boca.
Respirar era um trabalho. O ar assobiava e rangia através do nariz entupido de sangue e cartilagem quebrada.
Tentei falar, explicar, negociar, algo, mas outro soco, dessa vez na boca do estômago, tirou todo o ar que me restava.
Eu me dobrei, tanto quanto as correntes permitiam, e cuspi um jato escuro de sangue e bile no chão de cimento sujo.
Forças, eu não tinha mais.
Eles tinham me mantido assim, nessa dança de dor metódica, por mais de duas horas.
Talvez três.
O tempo tinha virado uma massa elástica de agonia.
O pior era a lógica sádica deles, tinham me arrastado para um canto, feito uma cirurgia de merda para tirar a bala que o Eduardo tinha plantado na minha lateral, costurado os pontos da barriga que a facada da Lorena tinha aberto de novo.
Não por piedade e sim, para me manterem vivo.
Para eu aguentar e sentir mais.
A porta do porão se abriu, e o silêncio que caiu sobre os homens que me batiam foi mais aterrorizante do que qualquer grito.
Ele entrou.
O Abismo.
A máscara dourada, estilizada como um poço sem fundo, cobria todo o seu rosto.
Nem eu, que tinha trabalhado nos escalões mais altos, sabia quem diabos ele era.
O fantasma, fundador. O homem que supostamente tinha mais sangue nas mãos do que os outros onze juntos.
Um vazio ambulante movido a ódio puro.
Ele caminhou até mim, seus passos não faziam som no chão úmido e parou bem na minha frente.
Sua mão, enluvada de couro preto, agarrou um punhado do meu cabelo sujo de sangue e suor e puxou, forçando minha cabeça para trás.
Meus olhos, cego e inchado, o outro enxergando através de um véu vermelho, encontraram os orifícios escuros da máscara.
— Como você teve a audácia? — a voz dele saiu de dentro da máscara, um sussurro calmo, plano, que congelou o ar nos meus pulmões. — Como você achou que ia tocar no que é meu e se safar? Você é muito, Eclipse.
Com a outra mão, ele pegou algo de uma bandeja que um dos homens segurava.
Um soqueira inglesa, de metal escuro e frio. Ele a encaixou nos dedos com um movimento preciso.
Então, usou a ponta dela para erguer meu queixo, forçando meu olhar bom a manter contato com a escuridão da máscara.
— Onde está o meu dinheiro?
Engoli.
O bolo de sangue e saliva desceu como uma pedra. — Gas… gastei.
A queimadura no rosto latejava com uma vida própria, uma dor constante e aguda que rivalizava com tudo o resto.
— Eu consigo… consigo o dinheiro.
A máscara se inclinou levemente.
— Como? Como você vai conseguir cinquenta milhões agora, nesse estado?
— O… o desgraçado… o Rafael — cuspi o nome como um veneno. — Ele tem dinheiro. Muito dinheiro. A gente… a gente pega a minha mulher, a Lorena. Ela é a chave. Ele faz qualquer coisa por ela.
Houve um silêncio. Então, o Abismo soltou uma risada. Uma risada baixa, sem humor, que saiu da máscara como um som mecânico e aterrorizante.
— Você é mesmo obcecado por aquela cadela, não é? — ele disse, o tom debochado. — Ela é tão sua, que nesse exato momento provavelmente tá com o pau de outro dentro dela.
A raiva que brotou no meu peito foi tão quente que por um segundo superou a dor e o frio. Um rugido surdo escapou dos meus lábios.
— ELA É MINHA!
O Abismo não pareceu impressionado.
— Tanto faz. Como você pretende fazer isso? Você é um trapo molhado.
— Manda… manda o Félix comigo — ofeguei, meus olhos procurando o homem alto e silencioso que sempre ficava atrás do Abismo. Félix, o executor. — Se eu não conseguir… se eu não trazer o dinheiro… ele me mata lá mesmo. Você não perde mais homens. Eu trago o dinheiro… e a mulher.
O Abismo ficou parado, considerando. Eu podia sentir o olhar dele através da máscara, pesando minha proposta desesperada. Ele se virou para o Félix, que estava imóvel como uma estátua.
— Quarenta e oito horas — o Abismo disse, a voz final. — Você tem quarenta e oito horas para trazer meu dinheiro de volta. Os cinquenta milhões, mais vinte de juros pelo incômodo. Se não conseguir… — ele fez uma pausa dramática. — Você morre. O seu filhinho escondido no colégio interno morre. E eu vou atrás da sua filha também. Para fechar a conta.
Meus dentes rangeram de raiva e desespero. Meu filho. Ele sabia… Claro que sabia.
Ele fez um gesto com a cabeça e se virou, saindo do porão sem olhar para trás. Dois homens se aproximaram e começaram a me soltar das correntes.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Aliança Provisória - Casei com um Homem apaixonado por Outra
Olá É a historia da Milena e do Nikolas onde posso ler. A continuação onde encontro?...
Cadê as atualizações??? Desde fevereiro O que aconteceu??...
Pk já não tem atualização dos capítulos ?...
Cadê o capítulo 470???¿ Cadê o capítulo 473???????...
Onde está o capítulo *470* ?????????...
Kde o 470 ??? Aguardando...
É impressão ou a história ficou com partes puladas e sem detalhes ?...
Eita ela postou capítulos de outro livro é pacabá né...
Onde está o capítulo 419?...
Está chato continuar essa leitura mesmo no grátis só ler por metades quando atualiza tem uma tal de desvende os mistérios puta que pariu....