(Alice)
Sentei à mesa com o prato de sopa na frente, mas parecia que o cheiro já me enjoava. A televisão ligada na sala era a única coisa que quebrava o silêncio, até que a voz do jornalista me fez travar.
— “Uma explosão ocorreu hoje, por volta das seis horas da tarde, no antigo armazém da zona leste. Segundo informações da polícia, não houve feridos até o momento, mas as causas ainda estão sendo investigadas. O delegado informou que havia indícios de alguém estar morando no local, porém todas as pistas sobre quem seria foram misteriosamente encobertas...”
Um arrepio percorreu minha espinha e larguei a colher de lado. A comida perdeu qualquer gosto. Suspirei fundo, tentando engolir o nó que subia na garganta.
— Alice, come pelo menos um pouco — Júlio me cutucou de leve no braço.
Peguei a colher com relutância, mergulhei na sopa e levei à boca. O líquido desceu amargo, como se tivesse areia no meio. Forcei o engolir, mas meu estômago já se revirava.
Meu olhar caiu no celular, em cima da mesa. Ele estava desligado desde ontem. A tela preta parecia me encarar de volta, como se me desafiasse. Eu só conseguia imaginar o nome dele acendendo ali.
— Liga pra ele, Alice — Júlio murmurou, sério. — Deixa de teimosia.
Balancei a cabeça, mordendo o lábio.
— Eu não sei se consigo... Só de pensar que ele matou alguém já me dá uma angústia. E pior... pior ainda foi descobrir que foi ele quem matou a Mádila.
Minha voz falhou no nome da minha prima, e meus olhos se encheram d’água mais uma vez. Desde ontem parecia que eu não sabia mais o que era parar de chorar.
Júlio apertou minha mão, quente e firme sobre a minha.
— Eu sei... mas pensa bem, Alice. O Diogo não parece ser o tipo de cara que mata alguém a sangue frio. Deve ter alguma explicação.
Afastei a mão devagar e levantei, sentindo minhas pernas pesarem como chumbo.
— Eu vou deitar um pouco.
— Eu tô preocupado com você — ele disse, com aquela expressão de irmão mais velho que sempre tenta dar conta do mundo.
Forçei um sorriso, mesmo com a garganta queimando.
— Eu vou melhorar...
Fui até o quarto e me joguei na cama. A escuridão ao redor não trouxe alívio, só mais lágrimas. Elas caíram sem eu conseguir conter, molhando o travesseiro. A cada piscada, vinham as lembranças do jeito que ele sorria torto, a forma como me olhava, como me fazia sentir viva de novo.
Mas logo essas imagens eram engolidas por uma sombra fria. A imagem de Mádila, a sensação sufocante de que ele tinha sido o responsável...
O peito apertou tanto que eu abracei a si mesma, tentando segurar os pedaços do meu coração que pareciam prestes a se despedaçar de vez.
***
Eu ainda estava com os olhos marejados quando ouvi o portão se abrindo. Meu coração disparou na hora, quase saindo pela boca. Os passos se aproximavam e eu fiquei olhando fixamente para a porta, esperando que ela abrisse... mas nada aconteceu.
Então, Julio apareceu na porta do quarto.
— O entregador trouxe seus remédios — disse, calmo.
Engoli seco, tentando esconder o choro.
— Obrigada... — murmurei, limpando as lágrimas rápido demais, como se isso fosse apagar os rastros de tudo. Calcei as sandálias, respirando fundo, e caminhei em direção à sala.
Mas quando atravessei o corredor... o tempo simplesmente parou.
Ele estava ali. Diogo.
Meu peito pesou, minhas pernas ficaram fracas. Ele estava com o olhar abatido, o rosto marcado por alguns arranhões, o braço também. Mesmo assim, ainda era ele... o homem que eu tinha tentado odiar nas últimas horas, mas que continuava preso em mim de um jeito sufocante.
O encarei de cima a baixo, sentindo cada pedaço do meu corpo estremecer. Quando ele deu um passo na minha direção, ergui a mão, mandando ele ficar onde estava.
Eu tinha tanta saudade dele... mesmo que só tivesse se passado um dia.
— Nós precisamos conversar — ele disse, com a voz rouca. — Eu preciso te explicar o que aconteceu de verdade.
Suspirei, tentando segurar as lágrimas, mas elas caíram sem que eu pudesse controlar. Ele avançou mais um pouco e eu recuei, minhas costas batendo contra a parede.
A pergunta escapou da minha boca antes mesmo de eu pensar.
— Foi você? Foi você que matou a Mádila?
Ele parou. Travado. O seu olhar se apagou de uma tristeza que machucava ainda mais o meu coração.
— Foi... — admitiu num sussurro. — Mas não foi porque eu quis.
Senti algo explodir dentro de mim.
— COMO?! — gritei, a voz rasgando. — Como alguém mata outra pessoa “sem querer”? E encobre isso por quanto tempo, hein? Seis anos? Nove? Dez?
Eu não conseguia mais controlar nada. A raiva, a frustração, a saudade, o medo... tudo saiu de uma vez, como se fosse me destruir.
— Eu... eu tinha que proteger meu irmão e minha mãe... — ele tentou explicar.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios.
— Proteger?! Você acha que isso justifica? A morte da minha prima foi dada como uma morte boba, sabia? Que ela tropeçou e caiu sozinha daquele maldito estacionamento! — minha voz falhava, mas eu continuei. — Todo mundo dizia que era bem feito, que ela sempre foi louca... quando na verdade ela FOI JOGADA de lá!
As lágrimas escorriam sem parar. Eu sentia o gosto amargo do ódio na boca.
— Ela não teve nem um enterro decente, Diogo! Os pais dela não tinham dinheiro... enterraram ela como se fosse uma insignificante. E ninguém nunca explicou nada! NADA! — bati com o dedo no peito dele, empurrando com força. — E tudo por causa de quem? De você! Porque você tinha dinheiro, poder, e encobriu tudo!
Ele fechou os olhos, a voz quebrada:
— Eu me arrependo...
— Vem, eu te levo. — disse, já caminhando até a porta. — Mas olha, Alice… se você sentir que não vai aguentar, liga pra mim, tá? Nem pensa duas vezes.
Segurei o capacete e apenas assenti. O vento frio da manhã bateu no meu rosto quando saímos, e eu tentei acreditar que talvez a correria do trabalho fosse suficiente pra me distrair. Mas por dentro, a cena da noite anterior continuava queimando na minha mente, junto com o rosto de Diogo e aquela confissão que ainda ecoava nos meus ouvidos.
Cheguei no escritório tentando respirar fundo e colocar minha cabeça no lugar, mas era como se a noite mal tivesse terminado. O prédio ainda estava silencioso, só o barulho do meu salto ecoando no corredor.
Liguei o computador, organizei os papéis em cima da mesa e fiz uma lista rápida do que precisávamos ver na reunião de logo mais.
Pouco tempo depois, Larissa entrou com aquele jeito elegante de sempre e sua mão apoiando a barriga enorme.
— Bom dia, Alice. — ela falou, sorrindo. — Está tudo pronto?
— Tá sim — respondi, ajeitando uma pasta em cima da mesa. — Só dei uma revisada nos últimos detalhes.
Ela respirou fundo e deu uma risadinha.
— Essa será a última reunião com a equipe antes da licença, acredita? Nem parece real.
— Vai dar tudo certo. — forcei um sorriso.
Fomos juntas para a sala de reuniões e aos poucos, os integrantes do marketing foram entrando, trazendo café, laptops e cadernos. O clima era animado, mas eu sentia meus pensamentos cada vez mais longe dali.
Larissa começou a falar com aquela segurança natural dela.
— Gente, obrigada por estarem aqui cedo. Eu sei que está todo mundo correndo com as demandas, mas eu queria que a gente fechasse essas pendências antes da minha licença.
Um dos rapazes levantou a mão.
— Senhora Larissa, sobre o cliente da TechData, eles confirmaram o prazo da campanha?
— Já está no cronograma, — respondeu ela, sem nem precisar olhar anotações e depois virou pra mim. — Alice, e o cliente da SolarMais, já respondeu sobre o orçamento?
Eu ouvi meu nome, mas só percebi que estava viajando quando Larissa me cutucou discretamente por baixo da mesa. Eu pisquei, voltando à realidade.
— Desculpa, Larissa… eu estava… — balancei a cabeça, tentando disfarçar.
Ela sorriu de leve, compreensiva.
— Tudo bem, Alice. Só me confirma se o cliente aceitou?
— Sim, — respondi rápido, ajeitando os papéis a minha frente. — Já foi conversado e eles aceitaram o orçamento, assinando o contrato logo em seguida.
Entreguei uma cópia do contrato para ela.
— Ótimo. — assentiu, se virando para a equipe. — Então nós podemos alinhar a entrega e marcar a primeira revisão de campanha para semana que vem.
Enquanto todos falavam e eu tentava anotar alguma coisa, minha mente insistia em voltar para o rosto de Diogo, para a lembrança dele na noite anterior. As palavras da reunião iam entrando e saindo da minha cabeça sem fixar. Era como se o ambiente estivesse em um idioma diferente, e eu só conseguisse escutar a minha própria confusão interna.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Aliança Provisória - Casei com um Homem apaixonado por Outra
Cadê o capítulo 470???¿ Cadê o capítulo 473???????...
Onde está o capítulo *470* ?????????...
Kde o 470 ??? Aguardando...
É impressão ou a história ficou com partes puladas e sem detalhes ?...
Eita ela postou capítulos de outro livro é pacabá né...
Onde está o capítulo 419?...
Está chato continuar essa leitura mesmo no grátis só ler por metades quando atualiza tem uma tal de desvende os mistérios puta que pariu....
Afff piorou, agora não são dois, é nadaaaa!!!...
Vou fazê-lo novamente!!!! Dois capítulos por dia é um desrespeito!!!...
Ué cadê meu comentário?...